Entregue-se ao improvável.
Foi isso que eu fiz, me rendi às circunstâncias. Aprendi na base do tapa que as regras do romantismo foram criadas por sonhadores. E que sonhadores sonham, mas muitas vezes não realizam.
Eram idealizações. Acreditar de olhos fechados nas histórias rendeu uma moldura bonita ao quadro. Rendeu uma tonalidade rosa aos fatos, esperas intermináveis e finais contraditórios. E rendeu encontros mal humorados com a realidade, que esteve sempre lá com seu olhar conducente: "eu te avisei"..
Não é difícil entender o processo dos sonhadores. Realizar pode ser muitas vezes frustrante, se não agora, a longo prazo. Oras, sonhos não tem fim, realidade tem. Um sonho, enquanto sonho, não admite dor.
Acontece que, mesmo sem fim, os sonhos se cansam. Mesmo eles, tão aparentemente auto-suficientes, se entregam também à ironia do amor. E cada um deles procura por sua realidade, negando para si mesmos, todos os dias, sua própria autoridade tão bem desenhada.
Eu mesma a desenhei várias vezes, e guardei o desenho em caixas frustradas. Não faz muito tempo que entre minhas pequenas metas, estava a de me entregar à vida, e a seus fatos reais. O intuito era não apenas se contentar com o que tenho em mãos, mas moldar meus sonhos à minha realidade. Era construir meu castelo com as ferramentas disponíveis e usar a idealização apenas como força de vontade.
Hoje o castelo continua em cima de nuvens, e as nuvens, em cima de alicerces. Eu não conseguiria explicar em aspectos materiais, mas o que importa é que o processo é esse. Se ontem eu caía, hoje eu escorrego. Se antes eu me rendia, hoje eu me entrego. Com segurança em uma mão e dedicação na outra.
Criar regras para sentimentos é tão útil quanto tentar entender esse texto sem nunca ter amado. Apesar de não (e nem querer) encontrar um controle, busquei um direcionamento.
E até onde sei, a vida toda se move em cima de uma pequena palavra: adaptação.
Eu me viro pra sobreviver, pra entender, pra tirar algum proveito de tantas situações. E antes de mais nada, me viro pro amor. Não pro amor que dói, pro amor que ama.
Melhor do que acompanhar o tempo, acompanhar os momentos, é acompanhar seu próprio crescimento. Ver as marquinhas nas paredes internas e ir lá todos os anos, se surpreender com o tanto que você cresceu e progrediu. Apenas dois centímetros a mais, mas olha só como era há alguns anos.
Mudanças vieram, se foram, e o que restou foi isso, uma mescla de sonhos com realidades constantes. E idéias tão inconstantes que, mesmo de maneira tão duvidosa, te fazem assim, do jeito que você é, com tuas manias, fatos, crenças, valores. Tu e teu jeito de arrumar o travesseiro na hora de dormir, de encarar as despedidas, de acordar de mau humor, de detestar dia de chuva e de amar estalar os dedos. Teu jeito de encarar o bom dia, se virar com o mau dia e sobreviver aos próximos dias. Teu jeito de superar teu próprio jeito e o jeito do outro. Teu jeito de ser você, vivendo você, num espaço com vários outros eus.
É mágico entender que a vida é simples, clara e que flui tão tranqüilamente. Os pontos coloridos é você quem coloca, as sombras e os contornos também. Sobreviva às circunstâncias e crie seus atalhos. Misture as cores das idealizações com as da realidade. Clareie os tons escuros, apague o rascunho e mostre com orgulho que você pode não saber como, mas vive, e sabe viver. Estará pronto seu desenho e um desafio só seu, de superá-lo. As idéias estão correndo, e a caixa de lápis de cor está aí...
Eu não sei porque coloquei esse texto aqui, mas já que a inspiração veio, eu compartilho.
Ando ausente e detesto isso. Detesto mais por mim, que sinto tanta falta dos meus momentos comigo mesma. Viver correndo como eu estou fazendo é um erro. É como comer correndo e perder todos os sabores, a pressa faz a gente perder detalhes importantes, faz perder o contraste das cores...
Odeio essas circunstâncias de ter crescido. Odeio cada documento posto à mais na minha carteira. Odeio não ter uma outra-eu em anexo para passar o dia tranqüila. É claro que tem benefícios: os trabalhos infinitos na faculdade me fazem evoluir, o trabalho na empresa me faz crescer (idem para o bolso) e até o estresse era um pouco necessário para essa minha garganta engolidora de sapos.
Eu to um pouco estressada e cansada. Vai passar, mas até lá eu fico aqui quietinha, dando o melhor de mim, e com palavras explodindo aqui dentro, loucas para sair e dar as mãos umas às outras.
Mas eu aprendi com os outros, é bom ficar quietinha de vez em quando.