Miopia
Sensível capaz de sentir cada fio de cabelo bater no seu rosto, enquanto a correria do vento corria contra a sua. Capaz de tocar os dedos dos pés no chão, um de cada vez, quando o dia começava a acordar e levantar lentamente, com preguiça e dor em seu corpo. Era um peso morto, que já não pesava nada, porque era feita de lembranças vazias, de tom desbotado e cor de neblina. Inspirava o claro, o cru, a realidade tal qual se manteve parada em sua frente por anos, mas que aquele leve grau de miopia não a deixava ver. E hoje o dia era frio, duro e cinza, por mais quentes que fossem os raios de sol queimando suas costas pela manhã. Nada era complicado pelo tempo, pelas faturas ou pelo documento perdido na rua. Complicado era não saber se finalmente ela havia acordado ou se, como todos os outros, havia também fechado os olhos. E se, ao adormecer, a falta de sono e a sobra de cansaço roubavam seus sonhos, nem acordada ela ainda os tinha. Se bem que sonhar fosse, talvez, uma conquista de poucos. Daqueles poucos que permaneceriam acordados, coloridos e vivos, por mais alguns dias e desafios, imunes ao leve toque de crueldade que todo despertador nasceu pra ter. Ninguém saberia dizer o fim da cena, ou traduzir sua mania solitária de enrolar alguns fios de cabelo com a ponta dos dedos. Mas eu apostaria numa ironia, matéria-prima de toda história que é bem vivida. Eu cruzaria os dedos por ela, aflita por querer induzir cada segundo de seu tempo a uma nova oportunidade. Esperaria, tranqüila, pelos antigos conhecimentos de causa e conseqüência, sem negar a constante expectativa. E por mais que existisse o medo, por mais que existisse o ontem, não haveria dor alguma por qualquer cor que pudessem tê-la roubado. Meninas como aquela têm uma aquarela dentro de si.
Outro dia.
A mandante desse coração sou eu.
Por mais óbvia que a informação pareça, é impressionante acreditar que só agora ela faz algum sentido. Se as autoras de livros de auto-ajuda continuam ganhando milhões à custa das mulheres (nada) inteligentes, eu sei que hoje, para elas, já não é um dia tão bom: mais uma cliente se foi.
E foi tarde, visto o histórico comprometedor. Sei que alguns integrantes de grupinhos sado-masoquistas andaram me sondando e teve gente que se compadeceu por tamanha auto-piedade. Madre Tereza achou bonito, minha mãe achou triste e no tempo da inquisição alguém até acharia correto sofrer pela felicidade alheia. Mas em mim doeu. E doeu a ponto de eu me indignar, largar mão dos planos românticos e rever conceitos.
Porque tem gente por aí dizendo que o amor é dar sem pensar em receber. Tem gente achando que amar é esquecer de si mesmo e viver pelo outro. Assim como tem gente cometendo suicídio por amor na cidade próxima, e praticando auto-flagelação por amor no Iraque. Gente que inverte uns valores e exagera outros, transformando um sentimento que era pra ser tão bom, em tortura medieval.
E eu acho, acho mesmo, que amor é entrega, é doação, é dedicação incondicional. Mas antes de amar o próximo desertor de tanta emotividade, eu amo a mim mesma, com a mesma falta de restrições. Só faltava esse estalo, esse carinho e atenção que só eu mesma, depois de uns tombos, poderia me dar.
Eu sei que demorou duas décadas pra que eu percebesse. Uma vida, uns baldes de lágrimas e duzentas caras inchadas. Mas já é definitivo: amor e dor agora só rimam em poesia vazia e barata, em qualquer coisa que seja o oposto dessa entrega que eu sempre tive e ofereci. Por mais que a realidade negasse, por mais que a minha essência insistisse.
A lei da gravidade continua fazendo jus ao nome, já que nada seria mais grave que deixar qualquer sonho de lado por algum percurso mal concluído. Eu quero manter meus pés longe do chão, mas preservar minha tranqüilidade intacta e me cercar desses cuidados que manterão minhas expectativas seguras. Porque quem foi feita pra amar agüenta tudo, e pode tudo, menos fugir da missão.
E, mais livre e segura do que nunca, eu me rendo a ela.